Sua Burra
- Natércia Godinho

- 31 de out. de 2025
- 1 min de leitura
Burra, e acreditei.
Não por burrice, por fé nas vozes adultas.
Hoje já não acredito,
mas ficou.
A minha sombra?
Uma professora de paciência.
Diz-me: “Tété, pára de pensar bonito
e ouve o que o corpo sussurra.”
E eu ouço
com estas orelhas de burra
que me envergonharam
e agora me servem de ouvidos do mundo.
Capto o som do ridículo,
o rumor da vaidade,
o eco do medo de errar.
Sou burra quando acredito no aplauso,
lúcida quando escuto o silêncio.
Sou burra quando fujo da sombra,
livre quando a deixo dançar comigo.
E, no fim,
descubro que a sabedoria é isto:
aceitar a burrice
como parte do encanto.
Há inteligência na lentidão,
há graça na gafe,
e há asas escondidas
nas orelhas que um dia
me fizeram baixar a cabeça.
Morreu.




Comentários