Amei O Suficiente?
- Natércia Godinho

- há 4 dias
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Ninguém pertence a ninguém.
Pertencemos, isso sim, à própria vida.
Confundimos amor com posse. Dizemos "o meu marido", "a minha mulher", "o meu filho", "a minha casa", "a minha saúde", como se o tempo nos tivesse passado uma escritura. Mas a vida não assina contratos.
Apenas empresta.
Tudo muda.
Tudo parte.
Tudo morre.
E, talvez por esquecermos esta verdade, sofremos duas vezes: primeiro quando acreditamos que algo nos pertence; depois quando a vida nos mostra que nunca pertenceu.
Há partidas que nos rasgam.
Há tristeza.
Há depressão.
Há dias em que a vida parece transformar-nos em vítimas daquilo que perdemos.
Mas, pouco a pouco, outra pergunta começa a nascer.
E se o sentido da vida nunca tivesse sido possuir?
Quando caminho pelos prados, pelas montanhas junto ao mar, entre moscas, abelhas e borboletas, entro naquilo a que passei a chamar o ritmo da pertença.
Recebo.
E ofereço.
Respiro o que as árvores libertam. Elas recebem o que eu devolvo. As abelhas recolhem o néctar e deixam o pólen. O mar molda as falésias, enquanto as falésias acolhem o mar. Até a decomposição é generosa. As folhas caídas transformam-se em terra fértil. O silêncio transforma-se em canto de pássaros.
E é nesse instante que sinto uma espécie de êxtase.
Deixo de ser observadora.
Passo a pertencer.
Já não caminho pela natureza.
Caminho com ela.
Não a contemplo de fora.
Faço parte dela.
A cada inspiração, recebo um presente do mundo.
A cada expiração, devolvo-lhe uma parte de mim.
A respiração deixa de ser apenas um processo biológico.
Torna-se um gesto de reciprocidade, uma conversa silenciosa entre o meu corpo e tudo o que vive.
É aí que compreendo que talvez o amor comece assim.
Não como uma emoção reservada aos seres humanos, mas como uma experiência de pertença.
Uma força invisível que nos liga às árvores, aos insetos, ao mar, ao vento e uns aos outros.
Amar é participar.
É entrar nesta troca contínua, onde nada vive apenas para si.
E tudo isto porque a vida quer vida.
Há um impulso silencioso que atravessa cada folha, cada raiz, cada asa, cada pulmão.
Há um desejo de viver.
Simplesmente assim.
Sou mais um sopro na respiração do mundo, mais um corpo que recebe e devolve, mais um ritmo na grande dança da pertença.
Nestes momentos, deixo de ver a vida e a morte como opostos.
São movimentos do mesmo ritmo.
Uma recebe onde a outra oferece.
Uma desapega-se onde a outra começa.
Talvez seja esse o maior paradoxo.
É precisamente porque a vida quer vida que a morte também lhe pertence.
Não como o seu contrário, mas como a transformação que permite à própria vida continuar.
Na proximidade da morte, raramente perguntamos:
Fui amado o suficiente?
Mais frequentemente, outra pergunta levanta-se.
Amei suficientemente?
Amei com coragem?
Passei demasiado tempo a sobreviver ao que me aconteceu, esquecendo-me de viver o que ainda podia oferecer?
Talvez seja esta a mudança mais profunda.
Deixar de viver como consequência da vida.
Começar a viver como expressão dela.




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