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Ritmos do Fim: As Mães, Cascatas de Vida no Bairro do Alfeite

  • Natércia Godinho
  • 23 de jan. de 2025
  • 4 min de leitura

As folhas caíam com a lentidão de um suspiro, tingindo o chão da mata de Manteigas com tons de dourado e cobre, uma verdadeira catedral natural. O som da cascata do Poço do Inferno ao longe misturava-se com o canto de um rouxinol, o qual não consegui avistar apesar de o procurar! Sentei-me encostada ao tronco nodoso de um carvalho o qual adivinho ter muitos anos, e permiti-me uma pausa perante o desfiladeiro da Ribeira de Leandres. Perdi-me em tanta beleza, um autêntico conto de fadas que me trouxe o conforto de quando eu, e os meus manos Chau e Mito nos aninhávamos na cama dos meus pais, ouvindo atentamente a história que a minha mãe nos contava antes de adormecermos agarrados uns aos outros, o meu pai ausente no ultramar. O Poço do Inferno tornou-se, naquele instante, num poço de memórias, um lugar onde a Vida e a Morte coexistem, onde o presente me levou a homenagear todas as mulheres.

 

Se o último texto foi dedicado ao meu pai e a todos os militares, é mais do que justo que agora eu escreva para elas: as mães. As mães do bairro do Alfeite, essas mulheres extraordinárias que foram muito mais do que apenas mães; foram guerreiras, professoras, donas de casa, mediadoras de conflitos e, muitas vezes, verdadeiras aldeãs que cuidavam umas das outras e das crianças como se fossem uma grande família.

 

O bairro do Alfeite era uma aldeia dentro de outra. Muitas dessas mulheres estavam sozinhas enquanto os maridos serviam longe, alguns no ultramar, outros dedicados à carreira militar. Algumas não sabiam ler nem escrever, mas sabiam educar. Sabiam ensinar sobre a vida, a resistir, a sobreviver. E que resistência! Em casas simples, com orçamentos apertados, elas transformavam o pouco em muito e faziam do nada um lar.

 

Eu cresci na rua, como tantas crianças do bairro. E que rua! Uma infância de risos, gritos e joelhos ralados. Trepávamos árvores como pequenos aventureiros, jurando que éramos reis e rainhas de reinos invisíveis. Cada galho era um castelo, cada cabana, uma fortaleza contra os inimigos imaginários. Brincadeiras como "Lá Vai Alho" – cujas regras eram tão confusas que hoje me pergunto como não nos quebrávamos ao meio. Talvez as minhas costas sofram até hoje por causa dessas peripécias. Tínhamos "Reis e Rainhas", os "Jogos Florais", e quem poderia esquecer dos rapazes vestidos de mulheres na "Miss Portugal"? Era uma alegria pura, com um tom de teatro improvisado e gargalhadas incontidas.

 

Tínhamos também o jogo do lenço, o rebenta, as malhas, os berlindes, as caricas... e passávamos horas criando um mundo só nosso. E depois houve o Pluto, o nosso cachorro adotado. Ele não era apenas um cão; era um membro oficial da miudagem do bairro. Querido por todos, ele corria livre como nós, pertencendo a todos e a ninguém ao mesmo tempo. O Pluto, com sua liberdade e lealdade canina, ensinava-nos que pertencer a todos também era uma forma de liberdade. Até o dia em que foi caçar com um vizinho e nunca mais voltou. Um mistério tão grande quanto os sumiços dos berlindes durante as nossas brincadeiras. Foi um contacto precoce com a Morte, algo que não compreendi na altura, mas que senti profundamente.

 

A minha mãe trabalhava muito, e a nossa casa tornava-se a sede das crianças! Brincávamos às lojas, às escondidas, do topo do roupeiro amándavamo-nos para cima da cama dos meus pais! Lembro-me da D. Maria, a nossa vizinha de baixo, que ao ver a minha mãe chegar do trabalho, reclamava do barulho. "D. Esmeralda, o candeeiro quase caiu!", dizia. E, claro, vinha o castigo. O castigo mais doloroso era não podermos brincar à noite na rua. Mas nós nunca parávamos. E sabem porquê? Porque não tínhamos apenas uma mãe. Tínhamos muitas. Cada mulher do bairro era um pouco nossa mãe, e cada casa era um pouco a nossa casa.

 

Essas mulheres eram verdadeiras heroínas, mesmo que muitas vezes não se sentissem assim. Elas carregavam o peso da ausência de seus maridos com uma força silenciosa. Imagino as noites solitárias, os travesseiros molhados de lágrimas, os diálogos não ditos. Dormíamos com a minha mãe quando o meu pai estava no ultramar. Ela contava histórias para nos acalmar, mas muitas vezes adormecia antes do fim – e nós, atentos, esperávamos o desfecho, cutucando-a para que continuasse. Era um conto de fadas onde a magia vinha da simplicidade.

 

Trabalhar, educar, lavar roupa à mão – porque não havia máquinas de lavar. As mães do bairro eram verdadeiras artistas da sobrevivência. Faziam caber o mundo inteiro em uma panela pequena, costuravam sonhos em roupas remendadas e transformavam a infância em algo inesquecível. Hoje, ao recordar tudo isso, sinto uma lava de emoções subir à superfície, uma explosão que precisa ser compartilhada.

 

Quero que todos saibam: as mulheres do bairro do Alfeite foram as heroínas de uma geração. Algumas ainda estão vivas, outras já partiram. Por isso, não só eu, mas toda a miudagem que cresceu nesse bairro, devemos um agradecimento profundo e eterno. Obrigada pela vossa dedicação incansável, pelo amor que aquecia nossas almas, pela resistência que moldou o futuro. Vocês foram, e continuam sendo, os alicerces de tudo o que somos hoje.

 

Sentada aqui, neste Poço do Inferno, a cascata que flui incessante em meio às pedras, levou-me ao Bairro do Alfeite, que correu também com a mesma vitalidade. Mas ao invés de águas cristalinas, ele foi preenchido por vidas entrelaçadas, sacrifícios silenciosos e um amor que moldava o futuro. Vocês, mães do Alfeite, não foram apenas poços de vida, mas também rios de esperança que moldaram o destino de cada criança que por ali passou. Hoje, esse legado ecoa como a cascata incessante do Poço do Inferno, vivo em nossas memórias e em nossos corações. Obrigada, mães do Alfeite, por terem sido o nosso Poço de Vida.

 

Dedicação á minha mãe, e a todas as mães do Bairro Social das Forças Armadas do Alfeite.

 

Esmeralda da Silva, na Base Naval do Alfeite
Esmeralda da Silva, na Base Naval do Alfeite

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