Os Abutres
- Natércia Godinho

- 10 de out. de 2025
- 1 min de leitura
Os abutres.
Sim, os feios
os de asas desmedidas,
os que não pedem licença ao vento.
Eu.
Horas e horas girando sobre o mesmo silêncio,
como monges do céu
rezando pela decomposição.
Admirei-os.
Sem pressa,
sem opinião,
apenas o faro infalível
para o que termina.
Os humanos desviam o olhar,
tapam o nariz,
pensei — dizem nojento —
e no entanto eu vejo arte.
O abutre não mata,
limpa o que resta.
Há dias em que o entendo
também eu ando cansada de fingir beleza.
Talvez um dia,
quando o meu corpo for leve demais para o chão,
um deles desça, curioso,
e eu, finalmente imóvel,
possa fitá-lo de perto
as pupilas fixas,
tão calmas.
E quem sabe, nesse instante,
ele me ache bela.




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