top of page

O Adeus Com IVA

  • Foto do escritor: Natércia Godinho
    Natércia Godinho
  • 22 de fev.
  • 1 min de leitura

O corpo ainda estava quente

e já havia orçamento aberto.

Eu ainda a chorar

e já me perguntavam:

“Quanto é?”

“É carvalho?”

“Compensa cremar?”

“Querem flores melhores?”

“E música?”

Chora-se.

Mas primeiro escolhe-se.

Standard.

Prestígio.

Madeira que prova amor.

A mão que limpa lágrimas

assina sem ler.

A outra encosta o cartão.

Eu vejo o multibanco ao lado da urna.

O recibo junto ao terço.

Cheira a verniz caro,

flor sobrevalorizada,

café morno servido entre cálculos.

A morte ali tem tabela.

Pacote.

Upgrade.

Compre um.

Leve dois.

Classe social até ao último retrato.

Até na cinza.

Eu penso no bosque.

Na árvore que cai

e na terra que não envia conta.

Aqui, até o adeus

se paga em prestações.

E eu ardo,

não pelo fim,

mas pela fatura.



 
 
 

Comentários


bottom of page