Morrer Não É O Meu Estilo
- Natércia Godinho

- 17 de fev.
- 2 min de leitura
Obituário de tété, que nunca coube numa urna pequena
Natércia Godinho, a tété, partiu.
1961 – (a outra data fica para quando for mesmo inevitável).
Ou melhor: mudou de ritmo. Porque sair abruptamente nunca foi o seu estilo. Preferia transições com conversa.
Nasceu em Timor-Leste, cresceu em Portugal, atravessou Inglaterra, Américas, Ásia, montanhas, aeroportos, hospitais e alguns desertos interiores que não vinham no roteiro turístico. Nunca foi de ficar quieta. Até o silêncio nela fazia caminhadas longas.
Foi filha de disciplina rígida, irmã com responsabilidade a mais, mulher que fugiu cedo demais e voltou diferente. Cozinhou cedo. Chorou cedo. Pensou cedo. Talvez cedo demais para quem ainda estava a aprender a ser criança.
Foi enfermeira da mente. Estudou psicologia para tentar compreender o animal humano que morde por medo e ama por vertigem. Concluiu que a dor não é inimiga. É mensageira persistente. Se não a escutamos, aumenta o volume.
Amou a natureza como quem reconhece família. Um pedaço de musgo comovia-a mais do que muitos discursos. Árvores tombadas não eram tragédia. Eram corpo rendido à gravidade da verdade.
Teve um pai montanha. Teve uma mãe maré persistente. Teve irmãos, filhos, netas que lhe abriram clarabóias no peito. Perdeu. Ganhou. Perdeu outra vez. E transformou tudo em matéria-prima. Nada se desperdiça quando se vive acordada.
Escreveu um livro sobre a morte enquanto ainda respirava. Chamou-lhe Ritmos do Fim: Conversas que Não Matam. Ironia fina. Nunca quis ensinar. Quis conversar. Quis olhar a Morte nos olhos e perguntar, com um meio sorriso:
“Então, vamos dançar ou vais continuar a assustar pessoas?”
Era inquieta. Era ácida com elegância. Ria-se em funerais se a conversa fosse honesta. Não suportava hipocrisia nem sentimentalismo plastificado.
Acreditava que a morte não é o oposto da vida. É o compasso que a organiza. Sem ela, a música ficaria interminável e desinteressante.
Viajou muito. Fugiu um pouco. Voltou sempre ao essencial: uma almofada honesta, um copo de água, um vinho cúmplice que soltava verdades, um caminho de terra e a pergunta certa dita quase em segredo.
Não acumulou bens. Acumulou histórias. E cicatrizes com utilidade.
Se pudesse deixar instruções finais, seriam simples:
– Não me transformem em santinha.
– Dancem, mesmo que desafinem.
– Falem da morte à mesa, entre o pão e o vinho.
– Plantem-me numa árvore. Nada de mármore vaidoso.
– E não mintam dizendo que fui perfeita. Eu própria nunca acreditei nisso.
tété não foi perfeita.
Foi viva. Intensamente. Incomodamente às vezes.
E isso, convenhamos, já é raro.




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