Morrer Bonita
- Natércia Godinho

- 2 de nov. de 2025
- 1 min de leitura
Aninhada no meu casulo de lata,
entre montanhas que respiram frio.
Uma nesga da janela revela
um fio de renda tecido pelo gelo,
obra caprichosa da madrugada.
Engraçado — lembro-me da minha avó Laura:
também ela fazia rendas
quando o frio batia à janela.
As mãos sabiam aquecer o mundo
sem precisar de lume.
Lá fora, o silêncio treme.
Cá dentro, o corpo é uma brasa preguiçosa.
Não me quero levantar!
O quentinho das mantas e o frio no nariz
dão-se bem,
como amantes que aprenderam a não discutir.
Penso no outono.
Quando tudo arrefece,
a Terra veste-se de fogo.
As árvores acendem-se em cores quentes,
como quem diz:
“Deixa-me morrer bonita.”
E rio-me sozinha.
Talvez seja isso,
o segredo da Terra,
do corpo,
da vida.
Sinto não estar viva.
A vida é que vive em mim
a dançar entre o vapor do meu hálito
e o sopro gelado da montanha.
E penso, enrolada neste ninho que anda:
o frio serve para nos lembrar
de onde vem o calor.
Então ponho a cabeça debaixo das cobertas
e abraço-me ternamente.
Sabe tão bem!




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