Fico Aqui
- Natércia Godinho

- 14 de mai.
- 2 min de leitura
Há um momento estranho depois da morte. O corpo parte. Mas a linguagem dos vivos também falha.
As pessoas aproximam-se devagar, quase sempre carregando frases herdadas como pratos de plástico num funeral:
“tens de ser forte.” “a vida continua.” “ele já não sofre.” “o tempo cura tudo.”
E talvez digam isto não por crueldade. Mas porque a morte abre um buraco onde muitos nunca ousaram olhar.
(silêncio)
Passamos a vida inteira a construir sentido. Trabalho. Filhos. Casas. Fotografias. Planos para agosto. Receitas escritas à mão. Discussões ridículas sobre chávenas, heranças, lugares à mesa.
Como se cada gesto dissesse:
“eu estive aqui.” “a minha passagem contou.” “não fui apenas pó a atravessar o vento.”
Depois alguém morre.
E os vivos, assustados com o próprio reflexo na morte do outro, tentam fechar a ferida depressa. Arrumar. Distrair. Normalizar. Voltar ao trabalho na segunda-feira como quem empurra folhas para cima de um vulcão.
Mas o luto não é uma gripe emocional. Não tem prazo de validade. Não respeita relógios nem produtividade.
Às vezes o morto continua sentado na cozinha durante anos. Na cadeira vazia. No cheiro de um casaco. Na maneira como alguém corta pão. Na música que aparece sem autorização num supermercado.
(silêncio longo)
Talvez o problema não seja a morte.
Talvez seja a dificuldade humana em aceitar que somos natureza e não máquinas de permanência.
Nascemos. Transformamo-nos. Morremos.
As árvores não pedem desculpa pelas folhas caídas. O mar não entra em pânico cada vez que a onda desaparece. Só nós insistimos que o amor devia escapar às leis da matéria.
E, no entanto, talvez amar seja precisamente isto: aceitar que tudo muda de forma.
(silêncio)
Quem sofre não precisa que lhe expliquem a vida. Precisa de presença. De alguém capaz de sentar-se ao lado do abismo sem o tapar com frases motivacionais.
Às vezes a maior coragem é dizer:
“não sei o que dizer.” “mas fico aqui.”
E ficar.
(respiração)
Porque há conversas que não matam. Mas o silêncio apressado dos vivos, por vezes, mói lentamente quem ficou.




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