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Fazer Parte da Pergunta

  • Foto do escritor: Natércia Godinho
    Natércia Godinho
  • 13 de jun.
  • 3 min de leitura

Pergunto-me muitas vezes:

O que é que a natureza sabe sobre morrer que nós ainda não aprendemos?

Não procuro respostas.

Passei grande parte da vida a procurá-las.

Nos livros.

Nos hospitais.

Na ciência.

Na religião.

Nas histórias dos outros.

Hoje procuro menos.

Caminho mais.

Durante muito tempo pensei que observava a natureza.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Quando caminho na floresta, junto ao mar ou entre montanhas, sinto-me menos visitante e mais participante.

Como se eu própria fosse uma das formas através das quais a vida se experimenta.

Talvez por isso algumas perguntas tenham começado a mudar.

Talvez porque comecei a suspeitar que algumas perguntas não querem ser resolvidas.

Querem companhia.

(Pausa)

A natureza parece compreender isso.

Uma folha não escreve tratados sobre o outono.

Cai.

Um rio não organiza conferências sobre a mudança.

Segue.

Uma árvore não protesta quando uma tempestade lhe arranca um ramo.

Continua.

As andorinhas-dos-beirais que vivem junto à minha barraca não parecem interessadas em teorias sobre a morte.

Os juvenis voam demasiado perto das paredes.

Falham curvas.

Descem.

Sobem.

Tocam quase uns nos outros.

Durante um segundo penso que se vão espetar contra mim.

Mas não. A visão é perfeita.

Voltam ao céu.

(Respira)

A Morte caminha ao meu lado.

Não fala muito.

Também ela parece escutar a floresta.

Às vezes aponta para uma árvore caída.

Outras vezes para um rebento a nascer de um tronco apodrecido.

Nunca explica nada.

Limita-se a perguntar:

“Vês?”

E eu vejo.

Mas não compreendo.

Talvez compreender não seja a tarefa.

(Pausa)

Durante anos acompanhei pessoas que estavam a morrer.

Hoje acompanho uma mãe envelhecida.

Um irmão doente.

Memórias de um pai que partiu.

Partes de mim que também partiram.

A filha que queria agradar.

A mulher que acreditava conseguir salvar toda a gente.

A companheira que pensava que o amor bastava.

A cuidadora que confundia responsabilidade com valor.

Todas desapareceram um pouco.

Todas deixaram pegadas.

Talvez seja por isso que escrevo sobre a morte.

Não porque esteja fascinada pelo fim.

Mas porque começo a desconfiar que o fim trabalha para a vida.

A natureza parece saber isso.

Nós parecemos esquecê-lo.

(Pausa longa)

Há qualquer coisa numa floresta que me intriga.

Nada vive sozinho.

A folha cai.

O fungo recebe-a.

O fungo alimenta a terra.

A terra sobe pela raiz.

A raiz transforma-se em ramo.

O ramo transforma-se em folha.

A folha regressa ao vento.

Tudo circula.

Tudo muda de forma.

Nada parece desesperado por permanecer igual.

Talvez nós também saibamos fazer isto.

Talvez apenas nos tenhamos esquecido.

(Olha à volta)

Quando era pequena em Timor, dançava ao som dos tambores.

Comia milho quente.

Corria entre braços que me apanhavam antes da queda.

A minha avó Luzia. O avô Joaquim.

As minhas tias e tios.

Mulheres e homens que pareciam fazer parte da própria terra.

Depois veio a partida.

Não me lembro da viagem.

Lembro-me do rasgão.

Durante anos procurei a origem da tristeza.

Como quem procura a nascente de um rio.

Hoje suspeito que algumas tristezas não têm nascente.

Têm corrente.

Continuam a passar por nós.

Mudam de forma.

Aparecem numa despedida.

Num amor perdido.

Num pai que morre.

Num irmão que adoece.

Numa fotografia encontrada por acaso.

E depois seguem caminho.

Talvez como os rios.

Talvez como nós.

(Pausa)

A natureza não parece muito preocupada em identificar o instante exato em que uma coisa termina e outra começa.

O amanhecer não chega de repente.

O crepúsculo também não.

A maré não pede licença.

A névoa não anuncia a sua chegada.

A vida inteira parece feita de passagens.

De dobras.

De transformações lentas.

Talvez a morte seja uma delas.

Não a maior.

Não a última.

Apenas uma.

(Respira)

Às vezes imagino que estas conversas sobre a morte são, na verdade, conversas sobre pertença.

Sobre o lugar que ocupamos dentro desta dança imensa.

Sobre a possibilidade de não estarmos separados daquilo que nos rodeia.

Talvez seja por isso que volto tantas vezes à natureza.

Não para procurar respostas.

Mas para me lembrar de que faço parte da pergunta.

A natureza nunca me respondeu.

O mar também não.

A floresta mantém os seus segredos.

As andorinhas continuam ocupadas com assuntos mais urgentes do que as minhas perguntas.

Mesmo assim continuo a caminhar.

Com a Morte ao meu lado.

Com a névoa à frente.

Com a terra debaixo das botas.

E com esta pergunta a acompanhar-me.

Como uma velha companheira de viagem.

O que é que a natureza sabe sobre morrer que nós ainda não aprendemos?

(Pausa)

A floresta não respondeu.

O rio também não.

As andorinhas passaram por cima da minha cabeça sem abrandar.

A pergunta continua intacta.

Talvez seja isso que a natureza sabe e nós ainda não aprendemos.

Algumas perguntas não vieram ao mundo para serem respondidas.

Vieram para nos acompanhar.



 
 
 

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