Desfocadas
- Natércia Godinho

- 7 de fev.
- 1 min de leitura
Desfocadas
A foto treme.
Não por vento,
mas por memória mal segurada.
Duas meninas fora de foco,
joelhos sujos de terra,
riso torto,
o mundo ainda sem legenda.
Crescemos.
Ou algo em nós endureceu
como pão esquecido ao sol.
Tu aí.
Eu aqui.
A vida a fingir nitidez
enquanto tropeça nos próprios contornos.
Dizem que é preciso ver claro.
Eu cá desconfio.
As árvores não pedem óculos
para saberem quando largar as folhas.
Há amores que ficam como líquenes
colados às pedras da infância.
Não brilham.
Persistem.
Amizade não é fotografia nítida.
É raiz subterrânea
que ninguém posta
mas segura a encosta inteira.
Lola,
se um dia nos reencontrarmos
que seja desfocadas outra vez,
para não vermos as rugas da alma
com tanta definição cruel.
Que ríamos sem saber de quê,
como quem cai na relva
e decide não levantar já.
Entre nós
há silêncios férteis,
musgo,
caminhos que a chuva quase apagou
mas os pés ainda reconhecem.
Viver desfocada
tem esta vantagem rara:
as dores perdem arestas,
as culpas ficam longe,
e o passado deixa de gritar
em alta resolução.
Tété e Lola.
Duas sombras ao fim da tarde
compridas, tortas, fiéis ao chão.
Se a vida é este borrão em movimento,
então que dancemos assim,
sem lente,
sem pose,
com a natureza a rir-se baixinho
da nossa mania de querer focar tudo.




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