Cadeira Ainda Quente
- Natércia Godinho

- 14 de fev.
- 1 min de leitura
Hoje é Dia dos Namorados, dizem.
Montras grávidas de corações.
Talheres afinados como se o amor precisasse de reserva.
Eu penso nos mortos.
Nos que amei e não desamo.
Nos que me amaram sem cupão.
Nos que saíram de cena e deixaram a cadeira quente.
O amor deles não tem embalagem.
Não chega por estafeta.
Não cabe num quarto com vista para o mar.
Chega em sonhos tortos.
No cheiro de uma camisa esquecida.
Num gesto que faço igual ao deles, sem querer.
Hoje não lhes levo rosas.
Levo silêncio.
Memória sem laço.
Há amores que não fazem barulho.
Ficam.
Que se ouça:
os mortos não estão mortos.
Amam-nos
de um lugar onde o marketing não entra.




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