Absolutamente Desorientada
- Natércia Godinho

- 28 de nov. de 2025
- 1 min de leitura
Hoje enterrei todas as teorias.
Nenhuma protestou, estavam mortas há tanto tempo
que só faltava alguém ter a gentileza
de lhes fechar o caixão.
No velório improvisado,
a ciência, a espiritualidade e a filosofia
apareceram atrasadas, como sempre,
a tentar explicar o inexplicável
com aquele ar de “eu é que sei”.
Coitadas.
Nem o cosmos sabe.
No silêncio antes da morte
o tal Pleroma, esse depósito de nada
até o infinito encolhe os ombros
e diz:
“Não faço ideia do que andas a tentar provar.”
Foi aí que percebi:
não preciso de pastor,
de teoria,
nem de manual.
A vida é caminhar às cegas
com a dignidade que sobreviver
e um humor negro que evita o colapso.
Se me perder, paciência.
Se a morte vier, melhor: sempre gostei de check-outs inesperados.
Já estou pronta,
de riso afiado
e absolutamente desorientada.
Como deve ser.




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