A Morte da Pessoa que Aprendi a Ser
- Natércia Godinho

- 10 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Quem sou eu?
Nasci sem pedir.
Obrigada mãe e pai.
Deram-me um nome,
um destino provisório.
Fui percebendo o que era bonito,
o que era feio,
o que era pecado.
Antes do “sim”,
já tinha aprendido o “não”.
Fui crescendo num teatro de regras e recompensas.
Aprendi que chorar era fraqueza,
rir demais era impróprio,
e sentir, sentir orfão!
Aos poucos, tornei-me o que se esperava.
“Tens de ser alguém na vida”, ouvia.
E eu, obediente,
comecei a procurar uma versão aceitável de mim.
Medi-me pelos outros:
aquele tem sucesso,
aquele outro é um fracasso,
aquele coitado é bêbado, drogado
eu não.
Eu tenho de ser alguém.
E assim nasceu a minha identidade adquirida,
esse disfarce civilizado
que confunde valor com aparência.
Aprendi também
a vaidade — para esconder o medo,
o orgulho — para fingir firmeza,
os ciúmes — para disfarçar o amor,
a inveja — para justificar a falta,
e o medo —
para me manter pequena,
mesmo quando parecia crescer.
Disse:
“sou isto”,
“sou aquilo”
profissão, estatuto, corpo, performance.
Imitei sem saber,
copiei sorrisos,
ambições,
gestos alheios,
até que a minha própria voz
começou a soar estrangeira.
E foi aí que me venderam o remédio perfeito:
aparência, filtro, aprovação.
A beleza,
essa grande indústria da ausência
ofereceu-me mil máscaras
e nenhuma pele.
E eu, hipnotizada,
acreditei
que existir era parecer.
Mas a noite chega,
e com ela o vazio.
A profissão cansa,
o espelho mente,
as certezas dissolvem-se como sal.
E então,
a pergunta voraz
volta a mim:
Quem sou eu?
Sou aquilo que imito.
Sou os rótulos que herdei.
Sou o medo de não ser nada.
Sou o ruído que fabrico
para não ouvir o meu próprio nome.
Mas há um instante,
um só,
em que o disfarce começa a ceder,
como o chumbo da ignorância
ao calor da verdade.
Nesse instante,
abraço o fim
como quem regressa ao princípio.
E sei, finalmente,
que só ao perder tudo o que aprendi a ser,
começo a existir.
Viva a morte.




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