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A Floresta Já Não Nos Atura

  • Foto do escritor: Natércia Godinho
    Natércia Godinho
  • 7 de dez. de 2025
  • 1 min de leitura

sentei-me debaixo de um zimbro,

para descansar,

um tronco caiu.

e, de repente, ouvi

a floresta a desabafar sem cerimónia:

tété, estamos fartas de ouvir:

“ai o meu marido que não me ouve…”

“ai as minhas costas, tão pesadas como a sogra…”

“ai a minha nora, que me olha de lado…”

“ai o meu chefe que mastiga em estéreo…”

“ai a menopausa, ai o joelho, ai o vizinho, ai os cabelos brancos, ai as rugas…”

“ai o intestino — preso, solto, indeciso…”

“ai que ninguém me entende…”

os êbanos fecharam o consultório.

os sobreiros decretaram:

— nova política: desabafem com a vossa própria sombra.

os musgos recusam terapias.

os cogumelos enterram-se à pressa

basta ouvir um humano arrastar queixumes.

as raposas devolvem dramas fechados, sem tocar no envelope.

até o rio, vejam lá, pendurou um letreiro:

“água não aconselha. só escorre.”

e a floresta inteira, exausta, rugiu:

“reforma emocional coletiva.

arrumem o vosso drama sozinhos.

nós vamos descansar.”


Pitões das Júnias  - Bosque Encantado
Pitões das Júnias - Bosque Encantado

 
 
 

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