88
- Natércia Godinho

- 23 de dez. de 2025
- 1 min de leitura
Mãe,
hoje fazes 88.
Digo o número baixinho,
como quem não quer acordar o tempo.
As tuas mãos
ensinaram-me o mundo
antes das palavras.
Sabem do peso dos dias,
do pão repartido,
do medo calado,
e dessa coragem tua
que nunca precisou de nome.
No teu rosto leio-te devagar.
Não como quem conta rugas,
mas como quem reconhece casa.
Cada linha guarda alguém,
algum dia,
algum silêncio partilhado.
Hoje não te celebro pelos anos.
Celebro-te por estares aqui,
viva e valente,
com o corpo mais lento
e o coração no mesmo lugar.
Às vezes penso
que o amor verdadeiro
é isto:
ficar.
Mesmo quando tudo em nós
vai aprendendo a partir.
Parabéns, mãe.
Fico aqui contigo.
Só isso.




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